O FIM DE UM CICLO — UMA DESPEDIDA DA GOOD LUCK TATTOO
Existem momentos na vida em que encerrar uma jornada exige mais coragem do que iniciá-la.
Hoje escrevo estas palavras para anunciar oficialmente o encerramento das atividades da Good Luck Tattoo Studio, um projeto que não nasceu apenas de uma profissão, mas de uma vocação que acompanhou praticamente toda a minha existência.
Meu nome é Janser Tattoo, e desde 1982, quando recebi pela primeira vez dinheiro em troca de uma tatuagem, dediquei minha vida a esta arte.
Foram mais de quarenta anos vivendo intensamente a tatuagem.
Mais de quatro décadas de histórias, desafios, conquistas, amizades, aprendizados e transformações.
Se eu tentasse contar tudo o que aconteceu ao longo dessa caminhada, certamente seria material suficiente para uma minissérie com diversas temporadas.
Vi a tatuagem sair da marginalidade para ocupar espaços de destaque na sociedade.
Vi preconceitos desaparecerem.
Vi técnicas nascerem e morrerem.
Vi máquinas rudimentares serem substituídas por equipamentos que, na juventude, pareceriam ficção científica.
Vi clientes se tornarem amigos.
Vi jovens se tornarem pais, avôs e, em alguns casos, vi seus filhos e netos sentarem-se na minha cadeira para continuar uma história que começou décadas antes.
Mas nenhuma jornada longa atravessa o tempo sem enfrentar tempestades.
O primeiro grande choque aconteceu no início dos anos 90, com a chegada da AIDS.
Foi um período de medo, incerteza e transformação.
A doença representou uma das maiores tragédias da história da humanidade, mas também me ensinou uma lição que carreguei para toda a vida: nenhuma profissão é indestrutível.
Foi naquele momento que percebi a fragilidade da atividade que eu havia escolhido.
Entendi que não poderia depender exclusivamente da tatuagem.
Aprendi que toda conquista carrega riscos e que toda paixão, por maior que seja, precisa conviver com a realidade.
A filosofia nos ensina que tudo aquilo que existe está sujeito à mudança.
Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque nem o rio nem a pessoa permanecem os mesmos.
A tatuagem me ensinou exatamente isso.
Nada permanece igual.
Nem o mercado.
Nem as pessoas.
Nem nós mesmos.
Ao longo da vida aprendi algo que talvez muitos considerem exagero, mas que eu afirmo com absoluta convicção:
Uma tatuagem pode influenciar profundamente o destino de uma pessoa.
Quando uma tatuagem é bem pensada, bem posicionada e bem executada, ela se transforma em algo muito maior do que tinta na pele.
Ela fortalece a autoestima.
Ela ajuda alguém a se reconhecer.
Ela marca vitórias, superações, recomeços e conquistas.
Uma grande tatuagem pode fazer uma pessoa caminhar de cabeça erguida.
Pode mudar a forma como ela se vê.
Pode alterar a maneira como o mundo a percebe.
Por outro lado, uma tatuagem mal planejada pode acompanhar alguém durante toda a vida como um arrependimento permanente.
Foi por isso que, desde o início da minha carreira, nunca enxerguei meu trabalho apenas como prestação de serviço.
Eu sempre entendi que havia uma responsabilidade moral envolvida.
Talvez por isso eu tenha entrado tantas vezes em conflito com a visão predominante do mercado.
Enquanto muitos defendiam que o tatuador não deveria interferir nas decisões do cliente, eu sempre pensei diferente.
Recusei inúmeras tatuagens.
Recusei trabalhos feitos por impulso.
Recusei posicionamentos que considerava inadequados.
Quem me conhece sabe que durante décadas mantive uma postura firme em relação a tatuagens no rosto, pescoço e mãos.
Não por preconceito.
Mas porque compreendia que escolhas permanentes exigem reflexão permanente.
Acredito sinceramente que muitas pessoas tiveram oportunidades preservadas justamente porque alguém lhes disse “não” no momento certo.
E se existe algo de que me orgulho, talvez seja disso.
Não apenas das tatuagens que fiz.
Mas das tatuagens que deixei de fazer.
Porque a ética também se manifesta através das recusas.
Mas existe outro capítulo desta história que mudou completamente minha trajetória.
Nos anos 80 surgiu uma proposta inusitada.
Um cliente queria tatuar uma serpente naja no braço.
Em troca, ofereceu dois computadores.
Na época, um computador podia custar o valor de uma casa.
Ainda assim, os equipamentos estavam sem cabos, não funcionavam e, segundo ele, haviam sido encontrados em um depósito de descarte.
Recusei várias vezes.
Mas a insistência dele venceu meu ceticismo.
Aceitei a troca.
E essa decisão alterou minha vida para sempre.
Anos depois consegui colocar aqueles computadores para funcionar.
E a partir daquele momento nunca mais passei um único dia distante da tecnologia.
Vieram os primeiros PCs.
Vieram os AT286.
Veio meu primeiro 386SX com Windows 3.0.
Comecei a montar computadores.
Passei a anunciá-los no antigo jornal Primeira Mão, uma espécie de ancestral do que hoje conhecemos como marketplaces digitais.
Foi através dessa fase que conheci pessoas extraordinárias.
Entre elas, um amigo tetraplégico que comprou um computador de mim e acabou abrindo portas para um universo completamente novo.
Foi através da tecnologia que alcancei algo que poucos tatuadores daquela época tiveram acesso:
Conhecimento acadêmico.
Enquanto muitos aprendiam apenas pela tradição oral, eu mergulhava em livros, arquivos universitários, publicações históricas e pesquisas antropológicas.
Passei anos estudando a origem, a evolução e os significados culturais da tatuagem.
Não apenas como artista.
Mas como pesquisador.
Esse conhecimento mudaria minha vida novamente quando encontrei meu verdadeiro caminho dentro da tatuagem: a arte polinésia.
Foi ali que compreendi que tatuar não era apenas desenhar.
Era preservar histórias.
Era respeitar culturas.
Era compreender símbolos que atravessaram séculos.
Era carregar responsabilidade.
E talvez seja justamente aqui que nasce a principal razão desta despedida.
Desde aproximadamente 2010 procurei alguém para transmitir tudo aquilo que aprendi.
Não apenas técnicas.
Mas filosofia.
História.
Responsabilidade.
Visão.
Procurei alguém que entendesse que tatuagem não é apenas comércio.
Que tatuagem não é apenas fama.
Que tatuagem não é apenas rede social.
Que tatuagem não é apenas dinheiro.
Infelizmente, não encontrei.
Alguns passaram pela Good Luck.
Outros permaneceram por algum tempo.
Alguns demonstraram talento.
Outros demonstraram vontade.
Mas poucos demonstraram verdadeira sede de conhecimento.
Muitos buscavam o glamour.
Poucos buscavam a essência.
Muitos queriam os resultados.
Poucos queriam compreender os fundamentos.
E existe uma diferença gigantesca entre as duas coisas.
A verdadeira maestria não nasce da repetição.
Nasce da compreensão.
O artesão reproduz.
O mestre compreende.
E compreender exige dedicação que vai muito além da técnica.
Exige estudo.
Exige humildade.
Exige tempo.
Exige amor pela verdade.
Hoje, olhando para trás, percebo que minha maior dificuldade nunca foi tatuar.
Foi encontrar alguém disposto a carregar o peso da responsabilidade que acompanha o conhecimento.
Talvez essa seja uma realidade de todas as gerações.
Talvez seja o preço que todo mestre paga ao longo da vida.
Aceito isso com serenidade.
Sem mágoas.
Sem ressentimentos.
Apenas como uma constatação.
Enquanto isso, outros projetos da minha vida cresceram.
Novos negócios surgiram.
Novos desafios apareceram.
E compreendi que chegou o momento de encerrar este capítulo.
Não porque deixei de amar a tatuagem.
Muito pelo contrário.
Talvez justamente porque a amo.
Algumas histórias merecem terminar enquanto ainda carregam sua dignidade.
Enquanto ainda preservam seus princípios.
Enquanto ainda honram aquilo que as tornou especiais.
A Good Luck Tattoo nunca foi apenas uma empresa.
Foi minha casa.
Foi minha escola.
Foi meu laboratório.
Foi meu templo.
Foi o lugar onde vivi algumas das melhores experiências da minha vida.
A todos os clientes que confiaram em mim.
A todos os amigos que caminharam ao meu lado.
A todos que carregam uma tatuagem minha em suas histórias.
Meu mais sincero agradecimento.
Vocês não foram apenas clientes.
Vocês foram parte da minha própria trajetória.
Se existe algo que espero ter deixado ao longo destes mais de quarenta anos, não são apenas tatuagens.
Mas reflexões.
Experiências.
Exemplos.
E a demonstração de que é possível construir uma carreira pautada por princípios.
A Good Luck Tattoo encerra suas atividades.
Mas a história vivida dentro dela jamais será encerrada.
Porque os lugares desaparecem.
As empresas terminam.
Os ciclos se encerram.
Mas aquilo que construímos na vida das pessoas permanece.
E é justamente nisso que encontro minha paz.
Obrigado por tudo.
Com gratidão, respeito e consciência de dever cumprido.
Janser Tattoo
Good Luck Tattoo Studio
1982 – 2026